CapaCidadeDigitalEconomiaEm focoMesser 20 anosPolíticaSaúde
Notícias

Quando a Rejeição Vira o Único Projeto

Editorial - A difícil escolha entre o ruim e o pior

Quando a rejeição decide, a democracia perde espaço.
31 Julho 2026 | Sexta-feira 08h21

O Brasil caminha para mais um ciclo eleitoral sob o peso sufocante de uma encruzilhada conhecida, mas não menos desgastante. O eleitor brasileiro se vê novamente constrangido a tomar uma decisão fundamental não pelo entusiasmo quanto ao futuro, mas pelo medo da alternativa oposta. As pesquisas recentes desenham um retrato fiel e incômodo do sentimento nacional: duas candidaturas que concentram a atenção pública ostentam, simultaneamente, índices de aprovação e de rejeição praticamente espelhados. Votar tornou-se uma consulta de contenção de danos, em que a escolha principal não é sobre quem representa melhor a nação, mas sobre quem causa menos aversão.

Nesse cenário de polarização afetiva e crônica, o debate público é o primeiro a ser sacrificado. O ambiente de construção de propostas reais para o país dá lugar a uma troca ininterrupta de farpas, ataques pessoais e retórica de antagonismo. Discutem-se os passados, as polêmicas e os desacertos dos adversários, enquanto soluções estruturais para a educação, a segurança, a economia e a infraestrutura ficam relegadas ao segundo plano. O eleitor, refém do ruído das redes e da agressividade das campanhas, é privado da oportunidade de avaliar planos de governo concretos e exequíveis.

Para agravar o impasse, as chamadas candidaturas alternativas continuam incapazes de descolar de patamares tímidos de aprovação. Falta a esses nomes a capacidade de furar o bloqueio da comunicação de massas, mobilizar o eleitorado pragmático e criar uma expectativa real de poder. Sem conseguir se apresentar como caminhos viáveis e competitivos, essas opções acabam estranguladas pela lógica do voto útil, que antecipa o duelo final e sufoca a diversidade de ideias logo nas etapas iniciais.

A consequência desse afunilamento é a erosão da própria democracia representativa. Quando a disputa se limita a dois lados cujos projetos se alimentam da rejeição mútua, ganha-se a eleição, mas perde-se a governabilidade e o consenso social. A cidadania não pode se resumir a optar pelo "menos pior". Enquanto o país não conseguir romper esse ciclo e exigir um debate focado na formulação de propostas e no respeito às instituições, o brasileiro continuará submetido à incômoda tarefa de escolher sem, verdadeiramente, poder optar.