EDITORIAL: Entre propostas e bate-bocas, a campanha eleitoral perde conteúdo.

Diante de tudo o que temos visto nos últimos tempos e das cobranças pela falta de projetos, programas e ideias concretas nesta campanha eleitoral, precisamos fazer um mea-culpa. Quando digo nós, refiro-me à imprensa, aos ouvintes, aos leitores, enfim, aos brasileiros.
Ultimamente, estamos mais interessados nos perrengues do que nas propostas. Façamos um exercício de raciocínio sobre aquilo que prende a nossa atenção. Projeto ou falácia? Uma briga, um bate-boca ou a apresentação de uma proposta concreta de um candidato?
A cobertura jornalística do segundo turno da eleição, assim como ocorreu no primeiro, revela uma tendência de priorizar a espetacularização em vez do debate programático, profundo e prático.
Em busca de audiência, os grandes veículos transformaram a corrida eleitoral em uma narrativa permanente de cabo de guerra. E essa prática acaba sendo reproduzida por toda a imprensa.
A atenção excessiva às oscilações diárias das pesquisas faz do processo eleitoral uma espécie de disputa esportiva. Com isso, análises sobre economia e políticas públicas perdem espaço para os ataques entre campanhas e os bastidores das alianças políticas.
A imprensa acabou contribuindo para ampliar a própria polarização que tanto critica em seus editoriais. Cabe reconhecer essa responsabilidade, sem transferir a culpa ou procurar justificativas.
As redes sociais passaram a pautar telejornais, jornais e portais de notícias com controvérsias superficiais, deixando o eleitorado com pouca informação substantiva para definir seu voto nesta reta final.
E aí entra aquela famosa pergunta: afinal, o que vende? A desgraça ou a informação? A briga ou o debate? É isso que rende audiência?
Por que baixamos tanto o nível da campanha eleitoral, assim como temos feito em tantas outras discussões?
A espetacularização está nos consumindo. Já nem percebemos quando uma proposta é apresentada com seus detalhes. Preferimos, muitas vezes, um perrengue bem produzido, que nos faça rir ou zombar da cara do outro.
Será que estamos contribuindo para disseminar a desinformação enquanto alimentamos aquilo que tanto criticamos?
É um mea-culpa que merece a reflexão de todos nós.
