Editorial - O cenário econômico revela a máquina pública operando no vermelho

O Brasil assiste, ano após ano, a um enredo fiscal que já não surpreende, apenas preocupa. Em 2025, a situação das contas estaduais se deteriorou pelo quarto ano consecutivo, confirmando aquilo que muitos gestores evitam admitir: o setor público, nos estados, opera no limite de sua capacidade financeira e política.
O enfraquecimento da atividade econômica atingiu diretamente o coração da arrecadação: o ICMS. Quando o consumo desacelera e a produção perde fôlego, o principal tributo estadual sente primeiro. E, sentindo primeiro, compromete tudo o que vem depois, ou seja, folha de pagamento, investimentos e manutenção de serviços essenciais.
A dependência excessiva de um único imposto revela não apenas fragilidade econômica, mas também falta de diversificação fiscal.
Ao mesmo tempo, governos que renegociaram dívidas ganharam um fôlego temporário. Mas o que deveria representar reorganização estrutural acabou servindo, em muitos casos, como combustível para a expansão de gastos. Às vésperas do calendário eleitoral, investimentos aumentaram, despesas correntes cresceram e a prudência fiscal foi relativizada. A história brasileira já mostrou como esse roteiro costuma terminar.
Os números do Banco Central são eloquentes: superávit de apenas 0,04% do PIB, o pior desempenho desde 2014, quando houve déficit. Trata-se de um equilíbrio meramente contábil, quase simbólico. Um resultado que não representa solidez, mas, sim, um fio esticado ao máximo antes de romper.
O Relatório Resumido da Execução Orçamentária confirma a tendência preocupante: enquanto as despesas avançaram 5,7% acima da inflação, a receita cresceu apenas 3,4% em termos reais.
A conta é simples e insustentável. Gastar sistematicamente mais do que se arrecada, mesmo em ambiente de crescimento modesto, é pavimentar a próxima crise.
Não se trata apenas de números frios. Trata-se da capacidade do Estado de honrar compromissos, investir com responsabilidade e oferecer serviços públicos minimamente eficientes. Quando a máquina pública cresce sem lastro, quem paga é o contribuinte, seja por meio de impostos mais altos, seja pela precarização dos serviços.
O discurso da responsabilidade fiscal não pode ser seletivo, ativado apenas quando convém politicamente. A falência do setor público não acontece de um dia para o outro; ela se constrói lentamente, na soma de decisões populistas, na ausência de reformas estruturais e na resistência em enfrentar privilégios.
Se nada mudar, o superávit mínimo de hoje poderá ser o déficit estrutural de amanhã. E, como sempre, a conta chegará, não para os governantes de ocasião, mas para a sociedade que sustenta o Estado.
