Projeto estuda o aproveitamento de estruturas subterrâneas para impulsionar a economia digital.

As minas de carvão desativadas de Criciúma e região poderão ganhar uma nova finalidade. A possibilidade de transformar essas estruturas subterrâneas em data centers, centros de processamento e armazenamento de dados, foi um dos assuntos que tratei com Fernando Luiz Zancan, presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável, durante entrevista ao Programa João Paulo Messer, na Rádio Eldorado.
O assunto ganhou repercussão depois que o prefeito de Criciúma, Vagner Espíndola, o Vaguinho, revelou a existência de estudos para o aproveitamento das antigas minas. A proposta, segundo Zancan, vem sendo desenvolvida há aproximadamente um ano e meio, a partir de uma sugestão de parceiros de Israel, país que utiliza estruturas subterrâneas para instalação de data centers.
Uma das principais vantagens está na temperatura constante do subsolo, que nas minas da região gira em torno de 20°C a 21°C durante todo o ano. Essa condição pode reduzir o consumo de energia necessário para a refrigeração dos equipamentos, um dos maiores custos operacionais desses centros tecnológicos.
Zancan explicou que a proposta vai além da instalação de equipamentos nas antigas minas. O objetivo é criar um cluster digital, reunindo empresas, serviços e atividades ligadas à tecnologia. Embora os data centers não sejam grandes geradores diretos de empregos, podem estimular uma cadeia econômica capaz de produzir novas oportunidades e arrecadação tributária.
Durante uma visita à Itália, acompanhando o prefeito Vaguinho, Zancan conheceu experiências de aproveitamento de minas subterrâneas na região de Trento. Além de estruturas tecnológicas, esses espaços são utilizados para armazenamento de maçãs, queijos, vinhos e espumantes, aproveitando as condições naturais de temperatura e segurança.
A iniciativa, entretanto, ainda depende de estudos técnicos. Entre os desafios estão a umidade, a ventilação, a conectividade e as condições estruturais das minas. Existe também a possibilidade de avaliar o aproveitamento da água acumulada em galerias alagadas para auxiliar na refrigeração dos equipamentos.
Segundo Zancan, um projeto de pesquisa financiado pela Fapesc já identificou potenciais ganhos energéticos. O trabalho avança para uma segunda etapa, com a participação de instituições e empresas do setor carbonífero. Há também monitoramento de uma estrutura experimental vinculada à atividade de mineração.
Outro passo importante está previsto para o final de novembro ou início de dezembro, quando um empresário italiano deverá visitar o Brasil para avaliar a possibilidade de reproduzir experiências semelhantes às desenvolvidas na região de Trento.
O presidente da associação destacou que existem iniciativas de utilização de antigas minas de carvão para data centers na China e no estado norte-americano da Pensilvânia. Ressaltou, porém, que nem todas as minas desativadas apresentam condições adequadas para receber esses empreendimentos.
A proposta abre uma perspectiva de diversificação econômica para Criciúma e região, historicamente vinculadas à mineração de carvão. Mas Zancan faz uma ressalva importante: ainda há um longo caminho de pesquisa, engenharia e avaliação de viabilidade antes que o projeto possa se transformar em realidade.
A possibilidade existe. O desafio agora é transformar o potencial das antigas minas em uma nova atividade econômica para o Sul catarinense.
