EDITORIAL: A cinco dias da eleição, a abertura de sigilos vira instrumento de pressão entre os candidatos.

Aqui, no Brasil, chegamos a mais uma eleição em 2026. Uma campanha que vai entrar para a história pelo empobrecimento das propostas, pela troca de alfinetadas de todos os lados, tesouradas daqui e dali, e por promessas que sabemos que dificilmente serão cumpridas. Algumas até poderão se tornar realidade, mas com consequências lesivas ao país.
É assim que pensa uma parcela dos brasileiros que acompanha e reflete sobre o processo eleitoral. Estamos diante de um verdadeiro jogo de vale-tudo.
O fato mais recente é uma petição protocolada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Supremo Tribunal Federal (STF), na qual a campanha do presidente Lula propõe autorizar a divulgação pública de dados bancários, fiscais e telefônicos dos últimos oito anos, incluindo os seus e os de familiares, sob a condição de que o adversário, Flávio Bolsonaro, adote a mesma medida em relação a si e ao seu núcleo familiar.
Lula propõe abrir os sigilos dele, de Janja, de seus filhos e de empresas vinculadas à família, incluindo atividades de palestras, eventos e publicações. A condição é que Flávio Bolsonaro também permita o acesso às informações dele, da esposa, Fernanda Bolsonaro, do pai, Jair Bolsonaro, da mãe, Rogéria Bolsonaro, e dos irmãos Carlos, Eduardo e Jair Renan Bolsonaro.
A proposta também alcança empresas vinculadas a Flávio Bolsonaro, entre elas a sociedade individual de advocacia, uma corretora de seguros, a Bravo Grafeno Tecnologia e Inovação Ltda., a Bolsonaro Digital Ltda. e uma empresa offshore com conta no exterior.
Essa é a proposta apresentada agora, faltando apenas cinco dias para a eleição.
Seria importante que tudo isso tivesse sido feito a seu tempo, e não às vésperas da votação. Afinal, sabe-se que, a partir da próxima segunda-feira, esse assunto poderá deixar de interessar até mesmo a quem está propondo a abertura dessas informações.
O brasileiro bem que deveria saber mais sobre as contas daqueles que governam e dos que disputam o poder. A transparência, afinal de contas, é cantada em verso e prosa neste país há bastante tempo, mas, na prática, continua sendo escamoteada.
Transformada em instrumento de conveniência política, a transparência acaba servindo aos interesses daqueles que alcançam o poder. Isso revela o quanto o Brasil ainda convive com práticas que alimentam a desconfiança e a corrupção.
Propostas como essa são extremamente importantes, mas não apresentadas dessa maneira e nesse momento. Perdem força quando surgem apenas como instrumento de campanha, sem tempo suficiente para produzir resultados concretos.
Não se consegue examinar informações dessa natureza em cinco dias. É um processo que exige tempo, responsabilidade e critérios.
Para completar, o presidente Lula condiciona sua participação no debate da Globo à abertura dos sigilos fiscais, telefônicos e financeiros de Flávio Bolsonaro.
Será que o presidente não teve um bom desempenho no debate da Band e teme sofrer novos prejuízos políticos em outro confronto? Essa é uma das leituras possíveis.
Outra interpretação é que Lula pretende pressionar Flávio Bolsonaro a demonstrar transparência e esclarecer a origem de seus recursos financeiros.
São duas leituras possíveis de uma mesma movimentação política.
O que está em discussão, afinal, não é apenas a movimentação financeira de pessoas físicas ou empresas privadas. O debate envolve a origem dos recursos e a necessidade de esclarecer eventuais relações com o dinheiro público.
Transparência não pode ser uma exigência de ocasião, muito menos uma moeda de troca eleitoral. Precisa ser compromisso permanente de quem governa e de quem pretende governar.
Porque, quando a transparência só interessa a cinco dias da eleição, a dúvida que fica é se o objetivo é esclarecer os fatos ou simplesmente conquistar votos.
