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Batalha das Narrativas

Editorial: O Sagrado como Palco e a Pandemia da Verdade

O palco muda, a disputa permanece.
05 Junho 2026 | Sexta-feira 12h14

A imagem que se desenha nas ruas é o retrato fiel de um Brasil que transformou a fé em ferramenta de engajamento e a política em uma liturgia ininterrupta. De um lado, a Marcha para Jesus tinge-se com o verde e amarelo, as cores intencionalmente encampadas por candidaturas de direita, unindo o fervor religioso à mística do nacionalismo partidário.

Do outro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva justifica sua ausência ao afirmar que participar de atos religiosos em período eleitoral seria "tirar proveito político de uma coisa sagrada".

Aparentemente, são posicionamentos opostos, construídos sobre princípios divergentes. Na prática, contudo, estamos diante de narrativas diferentes operando sobre a mesma substância: a extração cirúrgica de vantagens políticas junto às grandes massas.

A conveniência estética dita o jogo: para quem vai, o evento é comunhão e identidade; para quem se ausenta, o distanciamento é vendido como respeito institucional e superioridade moral.

O fato central, a mobilização de milhões de cidadãos movidos por sua fé, passa a ser secundário diante da embalagem discursiva que convém a cada uma das partes. Cria-se, assim, uma vitrine sob medida para o grande público.

O marketing político contemporâneo aprendeu que o importante não é o evento em si, mas a moldura que se coloca ao redor dele.

Esse fenômeno joga luz sobre um desafio urgente de nossa época: a necessidade vital de aprendermos a ler as entrelinhas e enxergar os interesses pragmáticos ocultos sob o manto das narrativas emocionais. Desenvolver esse filtro tornou-se um exercício diário de sobrevivência cognitiva, comparável ao esforço heróico de separar a informação factual das fake news que inundam nossos dias.