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Corrupção, palavra da hora

EDITORIAL - O combate à corrupção começa por nós.

A corrupção não nasce grande: ela cresce quando o pequeno erro vira hábito.
06 Março 2026 | Sexta-feira 07h31

A corrupção costuma ser tratada no Brasil como um fenômeno distante, quase sempre associado aos grandes escândalos que ocupam manchetes e inflamam debates públicos. Quando pensamos nela, imaginamos cifras bilionárias desviadas, contratos fraudulentos e complexas engrenagens de poder operando nas sombras. Contudo, essa visão limitada cria uma confortável ilusão moral: a de que a corrupção mora sempre no outro, nunca em nós. É justamente aí que reside uma das raízes mais profundas desse problema, que corrói a confiança pública e fragiliza nossas instituições.

A verdade incômoda é que a corrupção não nasce apenas nos palácios, nos gabinetes ou nas grandes operações financeiras. Ela germina também nas pequenas concessões do cotidiano, nos gestos aparentemente banais que normalizamos ao longo do tempo. Está no ?jeitinho? para furar uma fila, na tolerância com a vantagem indevida, na tentativa de driblar regras que deveriam valer para todos. Quando essas práticas se tornam corriqueiras, formam o terreno fértil onde as grandes corrupções florescem. Afinal, sociedades que relativizam pequenas transgressões acabam criando um ambiente cultural permissivo para crimes maiores.

Isso não significa, de forma alguma, que devamos diluir ou relativizar os grandes esquemas que desviam recursos públicos e comprometem o futuro do país. Ao contrário. Escândalos de grande proporção, como o caso envolvendo o Banco Master, exigem indignação pública firme, investigação rigorosa e responsabilização exemplar. A sociedade tem o dever de reagir, de cobrar transparência e de repudiar qualquer tentativa de transformar o interesse público em oportunidade privada de enriquecimento.

Mas a coerência moral exige que ampliemos nosso olhar. Não basta condenar a corrupção quando ela aparece nas manchetes; é preciso reconhecê-la também quando se manifesta em escala reduzida ao nosso redor. Uma sociedade que se indigna apenas com os grandes escândalos, mas tolera pequenas desonestidades cotidianas, acaba reproduzindo o mesmo ciclo que diz combater.

O combate à corrupção, portanto, não se resume a operações policiais ou reformas institucionais, embora ambas sejam necessárias. Ele começa também na ética diária de cada cidadão, na recusa em participar de qualquer prática que viole o princípio da honestidade. Combater a corrupção é rejeitar o privilégio indevido, respeitar regras comuns e entender que o bem coletivo depende do comportamento individual.

Nesse sentido, a vigilância social se torna uma ferramenta essencial. Uma sociedade vigilante é aquela que observa, questiona e denuncia, independentemente da dimensão do ato corrupto. Do pequeno abuso cotidiano ao grande escândalo financeiro, tudo precisa ser exposto e enfrentado. O silêncio e a complacência são aliados silenciosos da corrupção.

Nosso papel, portanto, é duplo e intransferível. Devemos cultivar integridade em nossas próprias ações e, ao mesmo tempo, manter uma postura firme diante das irregularidades que presenciamos. Não coadunar com práticas corruptas é mais do que um gesto individual; é um compromisso com a construção de um país mais justo.

Se quisermos, de fato, transformar a realidade brasileira, precisamos compreender que a corrupção não é apenas um problema de governos ou de instituições. Ela também reflete escolhas cotidianas da própria sociedade. Romper esse ciclo exige coragem moral, consciência coletiva e disposição para agir.

Somente quando denunciarmos, com a mesma convicção, tanto os pequenos quanto os grandes casos de corrupção, poderemos começar a desmontar a cultura de permissividade que ainda persiste no país. Afinal, a ética pública se constrói na soma de milhares de atitudes privadas.

É justamente nessa vigilância permanente, crítica, ativa e responsável, que reside uma das mais poderosas armas da cidadania contra tudo aquilo que insiste em manter o Brasil refém da corrupção.