EDITORIAL - Não há vacina para o maior mal do Brasil hoje

O Brasil atravessa uma das mais graves crises morais de sua história recente. Não se trata apenas de escândalos pontuais, mas de um ambiente em que a ética parece ter se tornado exceção. A corrupção deixou de ser manchete eventual para se tornar rotina institucional.
Diariamente surgem denúncias de desvios de verbas públicas, fraudes em licitações e favorecimentos ilícitos. Recursos destinados à saúde desaparecem enquanto hospitais enfrentam falta de insumos básicos.
Na educação, verbas se perdem pelo caminho, e escolas permanecem sem estrutura adequada. Obras superfaturadas se multiplicam, muitas delas inacabadas, simbolizando o desperdício crônico. A política, é verdade, concentra parte significativa dessa degradação.
Há parlamentares e gestores que traem a confiança pública em troca de vantagens pessoais. No entanto, reduzir a crise moral à classe política é simplificar um problema estrutural. A corrupção prospera porque encontra terreno fértil na tolerância social.
O famoso "jeitinho" frequentemente serve de disfarce para pequenas transgressões cotidianas. Subornar um agente para evitar uma multa é corrupção. Fraudar benefícios, mentir em declarações ou aceitar propina também são.
Quando cidadãos normalizam tais práticas, alimentam o mesmo sistema que condenam. O corrompido é tão culpado quanto o corruptor. Sem quem aceite a vantagem ilícita, o esquema não se sustenta.
Empresários que pagam propina para garantir contratos públicos participam ativamente da engrenagem. Servidores que facilitam processos mediante pagamento também escolhem violar seu dever. Eleitores que vendem seu voto contribuem para perpetuar o ciclo vicioso.
A crise moral, portanto, é coletiva. Ela se manifesta na cultura da impunidade e na descrença nas instituições. Manifesta-se quando se aplaude o ?esperto? que leva vantagem sobre os demais e quando se ridiculariza quem age com honestidade.
Essa inversão de valores corrói a confiança social. Sem confiança, não há desenvolvimento sustentável nem justiça efetiva. O combate à corrupção exige reformas institucionais firmes e transparência.
Mas exige, sobretudo, uma transformação ética na sociedade. A responsabilidade não é exclusiva de Brasília; começa na consciência individual. Somente quando corruptos e corrompidos forem igualmente reprovados poderemos romper essa endemia moral.
